Tradição e bordado

Eu bordo desde pequena. Minha mãe foi quem me ensinou. Não me lembro exatamente quando, nem como foi que aprendi, porque além de bordar, minha mãe me ensinou várias outras técnicas manuais. Mas foi o bordado que me desafiou, me fez querer saber mais, foi com ele que me identifiquei. E foi assim, meio sem querer querendo, que aprendi com minha mãe o que ela possivelmente aprendeu com a mãe dela, que por sua vez, minha avó materna também pode ter aprendido com alguém de sua convivência familiar. Isso é tradição: cultuar coisas boas do passado, sem regras institucionais, com adequações a cada ser, com adaptações dos tempos, passando de geração a geração.

Dos bordadinhos da infância, quando fazia meio que por brincadeira mesmo, até os tempos atuais, onde bordar se tornou um ofício para mim, tive a partir da infância uma vivência que reforçou ainda mais minha vontade de querer desenvolver essa habilidade: ingressar no meio tradicionalista do Rio Grande do Sul.

Nos anos 80, a convite de amigos, meu pai me inscreveu para começar a aprender as danças tradicionais do Rio Grande do Sul. Ensaiávamos em uma garagem {pequenina hoje, mas que na época parecia enorme}. Eu, sem saber exatamente o que aquilo significava {ou significaria} para mim, curtia mesmo eram as coreografias, os amigos, as  brincadeiras com tantas crianças diferentes. Em seguida, começaram as viagens a rodeios, aí todas as crianças queriam comprar o mesmo brinquedo, a gente gostava de ir nos parquinhos {com aqueles brinquedos enferrujados, mas tão “legais”} que todo rodeio tinha. Na hora de se arrumar para a apresentação, estávamos prontos, cumpríamos nosso dever, mas depois a gente queria era “zuar”. E assim, com o tempo, fui aprendendo que o mundo das tradições gaúchas era muito divertido, cheio de alegria e amizade, mas ao mesmo tempo fui compreendendo que cada coisa tinha um significado, um porquê, uma explicação.

Ainda pequena comecei a estudar para concursos de primeira prenda. Mais decorando informações  e conceitos do que propriamente compreendendo, percebi que aquilo me ajudava a ir bem na escola. Os assuntos que estudávamos nos encontros de prendas, eram as matérias que aprendia nas aulas da 4ª série {5º ano do ensino fundamental hoje – não sei se as matérias estudadas ainda são as mesmas}. Muitas vezes quando a professora explicava, eu já sabia todo o conteúdo por ter lido e relido sobre geografia, história e folclore do Rio Grande do Sul junto com outras prendas nos encontros preparatórios. A autoestima ficava lá em cima. Além de uma prova escrita,  para esse tipo de competição, era importante demonstrar habilidades artísticas {saber cantar, dançar, declamar tocar um instrumento – eu sempre dançava}, habilidades comportamentais {desenvoltura para falar em público, conversar com as pessoas, pensamentos coerentes – nos fazia treinar na frente do espelho} e também saber fazer alguma demonstração de “dotes domésticos” – não era esse o nome, mas na verdade compreendia algo assim do “universo feminino” #sqn {artesanato, culinária e mais alguma outra coisa que não lembro exatamente. Foi nesse momento que consegui reforçar ainda mais o quanto bordar me fazia bem e também impressionava as pessoas. Não somente pelo fato de uma criança fazer um trabalho “tão antigo”, mas também por começar a compreender que quanto mais eu fazia, melhor ia ficando.

 

  • Um de meus primeiros bordados – ainda na infância {a influência da cultura gaúcha, sempre me fez gostar de ilustrações, fotos e imagens de bonecas, mulheres, meninas com vestidos rodados}:

 

 

Com o passar do tempo, ainda no meio gauchesco, consegui encontrar sentido e significado em outras diversas vivências, mas certamente as da infância me marcaram de forma tão positiva que me fazem ter a certeza de que se hoje faço do bordado um trabalho tão cheio de amor, de dedicação e de propósito, sendo uma de minhas fontes de renda, foi com o reforço e estímulo que encontrei dentro de um CTG {Centro de Tradições Gaúchas}.

 

  • Um de meus mais recentes bordados – faixa com monograma, do trajar tradicional masculino :

 

Perceba que de tantas coisas que relato a respeito desse pequeno pedaço de  minha experiência no meio tradicionalista gaúcho, e que marcaram de forma tão verdadeira e significativa minha vida, não destaco concursos que ganhei, competições e rodeios em que fomos os melhores, porque para mim o que de fato ficou, de forma prática, foram as habilidades que desenvolvi e que facilitam minha “vida real” {vida real = vida fora do meio tradicionalista}, as amizades que perduram por tanto tempo, os valores que me fazem lembrar diariamente que a simplicidade do homem do campo tem muito mais força do que as aparências complexas que no mundo moderno tendemos a querer criar.

Talvez se voltássemos nosso olhar ao potencial que o meio tradicionalista do Rio Grande do Sul tem para capacitar pessoas, contribuindo economicamente, educacionalmente e socialmente não só ao nosso estado, mas ao mundo, teríamos uma compreensão mais adequada de nossa cultura além das fronteiras de Centro de Tradições.

Encerro esse breve texto com a citação de Barbosa Lessa, que já nos anos 50 atentava pelo propósito do tradicionalismo em sua tese O Sentido e o Valor do Tradicionalismo {o negrito é por minha conta}:

“O Tradicionalismo consiste numa EXPERIÊNCIA do povo rio-grandense, no sentido de auxiliar as forças que pugnam pelo melhor funcionamento da engrenagem da sociedade. Como toda experiência social, não proporciona efeitos imediatamente perceptíveis. O transcurso do tempo é que virá dizer do acerto ou não desta campanha cultural. De qualquer forma, as gerações do futuro é que poderão indicar, com intensidade, os efeitos desta nossa – por enquanto – pálida experiência. E ao dizermos isso, estamos acentuando o erro daqueles que acreditam ser o Tradicionalismo uma tentativa estéril de “retorno ao passado”. A realidade é justamente o oposto: o Tradicionalismo constrói para o futuro.