Trabalho artesanal: uma sapataria ou uma fábrica de sapatos

Hoje o dia foi intenso. Apresentei no Encontro de Negócios da Microempa (Associação das Empresas de Pequeno Porte do Nordeste do RS) um pouco sobre o meu trabalho a frente de um negócio criativo e artesanal.

Venho trabalhando há algum tempo para um despertar da valorização do ofício artesanal, querendo motivar um novo olhar sobre o potencial econômico, artístico, cultural e até turístico que o artesanato pode desenvolver.

Entre conversas e contatos, encontrei na Microempa um campo fértil para se disseminar ideias e tenho recebido apoio e incentivo a essa proposta como jamais imaginei receber de uma entidade empresarial.

O Encontro com Negócios é a nova versão do Café com Negócios que a entidade promove há bastante tempo. É um evento de network, troca de informações, contatos e experiências no intuito de gerar negócios. Toda edição tem uma empresa patrocinadora do Café, que adquire o espaço de 25 minutos para uma explanação mais detalhada de seu projeto antes das apresentações de todas as empresas em formato de rodada de negócio (1 minuto cronometrado para cada pessoa falar).

Quando a gente descobre nossa missão/vocação/destino/propósito/causa {ou seja lá o nome que você acredita} o Universo conspira a favor. Eis que eu fui contemplada com esse espaço em um sorteio realizado entre os participantes que mais compareceram nas edições de 2016. É ou não é uma sorte grande?

2017 começou então me desafiando a {mais do que tirar meu amor pelos bordados do campo das ideias} concretizar Um Pontinho – Bordados feitos a mão como um negócio. Ter uma empresa não é algo fácil {embora iniciar uma atividade com CNPJ tenha sido facilitada através da possibilidade de abertura de MEI}. Mais do que ter ideias e ideais transformados em produtos, uma empresa responsável deve ter um processo que a torne rentável, seja para reinvestir nela própria, em projetos, etc, seja pelo menos para custear a vida de quem se dedica a ela.

Montar a apresentação do Encontro de Negócios me fez refletir muito sobre isso, o que me forçou a pensar no meu trabalho de forma estratégica, porque quando alguém me pergunta o que eu vendo, eu tenho que saber o que responder. O bordado tem infinitas possibilidades de aplicação:

  • Desde a toalhinha de boca do bebê.

 

  • Até braceletes em metal:

 

O fato é que quando trabalhamos com algo artesanal é possível personalizar cada peça, planejar cada detalhe de cada encomenda e isso requer criatividade e principalmente TEMPO. A produtividade vem sendo perseguida pelo homem há bastante tempo, e a indústria ensina ao longo do tempo que processos otimizados e padronizados aumentam a capacidade de produção.

Usando uma referência de Andy Grove, a diferença entre uma fábrica de sapatos e uma sapataria, é que a última está preparada para servir qualquer cliente que entrar na loja, executando os trabalhos na ordem de chegada (built-to-order), enquanto a primeira funciona na base da previsão da demanda (built-to-forecast).

Prever uma demanda requer planejamento e conhecimento de produtos e clientes. Organizar antecipadamente a produção em uma série de ações padronizadas facilita a rotina e peças começam a “nascer” de forma ritmada, consequentemente há maior possibilidade de vendas e faturamento. Mas será que trabalhar dessa forma não perde o sentido do feito a mão? Até que ponto o exclusivíssimo do artesanal é importante?

Tenho pensado muito sobre isso, e confesso que a alternativa de trabalhar de forma automatizada me incomoda. Gosto de enaltecer o humano característico de cada peça de artesanato. Mesmo as imperfeições fazem sentido para mim {uma vez me incomodavam}. Mas ao mesmo tempo acredito que um negócio que não se sustente ou não gere valor aos envolvidos {inclusive valor financeiro} é inviável.

Estou ainda organizando esse novo momento que se apresenta, mas sei que algumas coisas já mudaram em minha rotina para que minha produtividade aumente. Para que a essência do artesanal não se perca e o negócio seja rentável e viável, acredito que uma mescla de sapataria e fábrica de sapatos será a solução. Encontrar esse equilíbrio, na minha opinião, será possível apenas se colocar em prática, testar, analisar e corrigir para então começar tudo de novo.